9.7.13

A revolta da musa



Depois de muito pensar sob a luz amarela do camarim, percebeu que sua vida fora dos palcos era algo incolor e residia longe do caráter de alguém. Queria alma, mais do que isso: aromas, sentidos! Então naquele dia chuvoso decidiu ir a loja de discos. Esquecera o guarda-chuva no rústico teatro e cedeu espaço para que os respingos rebelassem mechas aleatórias do cabelo ruivo. Na volta, parou num café, se ajeitou no balcão e retirou quatro LP’s da sacola, fitando rapidamente as faixas e conferindo um a um, como um hábito automático. Ao chegar no cubículo lotado de pôsteres, colocou Edith Piaf na vitrola e desembrulhou o pra extra forte pra viagem. Notou que algo roçara suas botas na entrada, e de relance pegou o envelope amarelo embaixo do rodapé. Deus do céu! Eram fotos de dezesseis, talvez dezessete anos atrás, como mudara! E aquele rosto… Soava familiar, claro! Era Carlos, uma de suas aventuras joviais. Há quanto tempo não se encontravam no estacionamento daquele antigo drive-thru para mais uma balada escondida, regada de álcool e algo mais. A foto anexava um bilhete: “No bistrô da Alameda 15, às 20h. Saudades, Carlos.” O café esfriou, o disco emperrou, e Dara não se dava conta do que acabava de acontecer. Estava decidida a ir, mas lembrou do infortúnio: tinha apresentação. Frustrada, empurrou as fotos com o manuscrito pra debaixo do sofá e decidiu adiantar a parte doméstica. Anoiteceu e o espetáculo iniciou-se em ponto. Paralelamente, Carlos espalhava a gota remanescente de perfume pelos pulsos e se preparava para sair de casa. Em meio ao foco de luz, Dara se perdeu em seus devaneios e esqueceu a deixa: no silêncio do ambiente desfez o penteado, caçou o sobretudo na chapelaria e saiu pela porta da frente, deixando os regalos e os paetês para trás, fitando no horizonte, logo ali na esquina, o maior espetáculo que estava por vir. Que tal deixar os fios se deliberarem no vento, enquanto desconcertamos a rotina? O outro lado da rua pode não ser o limite, mas talvez seja o início de um enredo, seu enredo.

8.7.13

Músicas da quinzena!

So sorry, pelo sumiço gente mas estava difícil esses últimos meses pra mim, mas graças a Deus as coisas estão se ajeitando, então sem mais delongas, o que eu descobri e mais ando escutando nos últimos tempos, beijinhos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

5.7.13

Escrevia algumas coisas que sabia, outras que inventava.

Untitled



“Escrevia a vida. Escrevia sentimentos. Escrevia tudo que sufocava por dentro. Tudo que queria falar, mas não tinha ninguém pra ouvir. Talvez até tinha, mas não se importariam. Lá escrevia amores, escrevia acontecimentos, sorrisos, lágrimas, tudo. Escrevia dores e as vezes relia isso, ouvindo uma música triste. Escrevia os livros que lia, os contos que gostava. Escrevia os finais felizes que conhecia e os que desejava pra si. Escrevia sobre os ventos que sopravam em sua janela. Sobre as portas que batiam, sobre as pessoas que já foram embora. Escrevia por quem ficou de voltar e torcia pra algumas pessoas irem embora. Escrevia a solidão. Escrever se tornava sua companhia. Escrevia perdões que não tinha coragem de dar, promessas de melhorar, novas maneiras para tentar sorrir. Escrevia que tudo iria melhorar, mesmo não acreditando naquelas poucas frases que esse tema lhe rendia. Escrevia sobre anjos lindos ninando seus sonhos, espantando os pesadelos. Escrevia sobre a vida que queria e comparava com o inferno que vivia. Escrevia sobre chuvas que devastavam tudo, mas também escrevia com detalhes as cores do arco-íris. Escrevia o que ouvia, escrevia algumas mentiras. Escrevia ensaios de diálogos que nunca diria e escrevia coisas que nunca ouviria. Escrevia Te amo como se algum dia o ouviria. Escrevia o amor que não tinha e a falta que isso lhe fazia. Escrevia sobre as estrelas no céu e os nomes que algumas tinham. Escrevia algumas coisas que sabia, outras que inventava. Escrevia sobre um mundo de sonhos, que lhe era negado pela realidade. Escrevia toda compreensão que tinha e a pouca que recebia. Escrevia o que gostava, deixando de fora o que não lhe agradava. Escrevia como seria se fosse bonita, como achava que eram outras cidades. Escrevia onde estava, escrevia pra onde iria. Escrevia como era voar, mesmo que nunca tivesse voado. Escrevia como eram as emoções, sem conseguir fugir do vazio que sentia. Escrevia sobre amizades, mais nunca teve alguém pra dizer “Bom dia!”. Escrevia o que mudava com o passar dos anos e o que esperava dos novos anos que ainda viriam. Escrevia tudo que não vivia. Escrevia, sabendo que ninguém nunca leria. Assim fugia do mundo cruel que vive, tendo alguns momentos de alegria.”

— Alentador

4.7.13

Namore uma Garota que Lê

Someday. | via Tumblr



"Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.

Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criador pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro. Compre para ela outra xícara de café.

Diga o que realmente pensa sobre Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa. É que ela tem que arriscar, de alguma forma.

Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.

Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois. Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.

Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype. Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.
Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.
Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.”
 
 
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3.7.13

Não dói mais

Someday. | via Tumblr

Sei que agora, nesse exato segundo, eu estou ultrapassando as barreiras que foram impostas a nós. Sei também que não devia estar fazendo isso, mas estou. E é pela última vez, eu juro. Você não tem noção do quão difícil está sendo lhe escrever de novo. A cada ponto final de cada frase o meu corpo se estremece, minhas mãos suam, meu pescoço estrala e eu sequer cheguei na metade de tudo o que quero te dizer. Aliás, acho que o fim do que eu sempre quis falar nunca esteve, de fato, próximo assim. Mas hoje é diferente. Eu não vim te agradecer, porque já fiz isso em outros milhares de textos. Eu não vim te xingar ou expor os seus defeitos, porque isso eu também já fiz. Eu não vim, em hipótese alguma, me rebaixar como em tantas outras vezes. Hoje, agora, eu vim fazer o que demorei cerca de quase dois anos pra ter coragem suficiente: colocar um fim em tudo isso. E o tudo inclui você, eu, nós dois, minha vaquinha de pelúcia e a música “Nosso Xote”. Eu queria que você soubesse que, querendo ou não, a sua presença na minha vida foi um divisor de águas nela. Seria em vão dizer o quanto você me fez bem, porque isso está cravado em quem eu sou. Ou melhor, em quem eu fui. Aquela garota que não sabia mais respirar, viver ou sorrir sozinha, hoje sabe - e como sabe! A verdade é que você me quebrou, cara. Do mesmo modo que me reconstituiu no início, no fim você me deixou trilhões de vezes pior. Eu pensei que com você eu era alguém melhor, mas era comigo que você se tornava alguém bom. E tudo o que eu senti, tudo o que eu te disse e principalmente tudo o que eu não te disse, tudo, tudinho, foi de verdade. Eu pensei que nunca conseguiria olhar pra outra pessoa com mais afeto do que eu olhava pra ponta do seu queixo. Eu pensei que nunca mais o meu coração se estremeceria tanto dentro do peito por outro alguém. Eu pensei que jamais deixaria de esperar por você, de querer você, de amar você. Mas eu estava enganada. Meu querido, você já foi meu. E admitir que não é mais, também não machuca mais. Será que algo dói em você, nem que seja o seu mindinho do pé? Não importa. Perguntas como “será que ele sente falta?” ou “será que ele volta?” deixaram de ter um valor significativo. O “será” não é mais uma hipótese amedrontadora. E isso é tão, mas tão bom de dizer. Talvez você conheça a sensação, afinal, ela o tocou primeiro. Mas o que importa é que ela, enfim, me tocou também: a sensação de liberdade. Olhe como eu respiro calma e tranquila agora. Olhe como os meus olhos permanecem sem lágrima alguma ao afirmar isso. Olhe como eu olho a vida colorida e risonha, mesmo sem você. O tempo passou, percebeu? Eu acabei de me dar conta disso. E o melhor: sem rastros tristes, sem traços de raiva, sem amargura alguma. Eu pensava que jamais me libertaria das correntes que me prendiam ao nosso trem, mesmo que ele estivesse sempre vazio, tanto de passageiros quanto de sentimentos. Eu me enganei, de novo. E nunca pensei que estar enganada trouxesse uma paz de espírito assim. Se você tiver seguido o meu conselho, posso ter a certeza de que continuas uma pessoa de bom coração. O seu objetivo não era me causar mal algum, eu sei. Mas o fim não justifica os meios e, infelizmente, os meios podem ser dolorosos. Eu joguei toda a culpa pra cima de mim, depois pra cima de você, até que a joguei fora. Não existe culpa. O que existe, na verdade, são dois corações calouros em busca da felicidade. E quem nunca quebrou a cara tentando ser feliz, não é mesmo? A gente não vai ter pena de morte por isso, por mais que tenhamos morrido inúmeras vezes nessa brincadeira estúpida de gostar. Alguém há de perdoar a nossa imprudência. A gente há de se perdoar, algum dia. Mas, hoje, eu queria que você tivesse a absoluta certeza que não existe mágoa alguma em mim. Eu sei que o seu maior medo era que eu te achasse um filho de puta, mas por incrível que pareça, eu não acho. Não mais. O seu nome já foi o meu maior medo de ser lido, a sua voz já foi a minha maior vontade de ser escutada, o seu rosto sempre vai ser o meu maior anseio. No fundo, no fundo, eu nunca vou deixar de gostar de você. Mas com certeza vou aprender a amar outras pessoas. Ou melhor, acho que já aprendi. Perdi a conta de quantas vezes eu quis você de volta, nem que fosse pra dizer que estava tudo bem, que estava comigo, que me ouviria a madrugada inteira se fosse preciso. Perdi a conta de quantas vezes quis te ligar pra você ouvir, através dos meus soluços, o tamanho da minha dor. Perdi a conta de quantas vezes implorei pra sentir de novo um pouquinho da felicidade que era estar ao seu lado. Perdi a conta, perdi o rumo, perdi você e me perdi de mim. Pensei que viveria para sempre dentro de um pesadelo sem fim, mas, pela terceira vez, estava enganada. Mas uma coisa é certa: eu nunca fui tão transparente quanto fui com você. Nunca, em toda a minha vida, me expus tanto a um sentimento. Nunca fiquei tão pele e osso na frente de alguém, mesmo que metaforicamente falando. O que eu quero dizer é que eu fui quem eu jamais pensei que seria. Você transformou as minhas partes ruins em partes toleráveis, e as minhas partes boas em partes invejáveis. Obrigada por isso. Obrigada, de verdade. Não queria que isso se tornasse cansativo, monótono ou exagero demais, mas você, mais do que ninguém, sabe o quanto eu odeio ser previsível e o quanto eu consigo ser isso quando escrevo. Ainda mais se o destinatário tem o seu nome. Queria que você soubesse que eu não sinto mais aquela compulsiva vontade e necessidade de encher papéis com trechos de qualquer coisa que me vem na cabeça. Hoje em dia eu silencio as minhas ideias e guardo as dores pra mim, como sempre fiz antes de quebrar as barreiras e compartilhá-las com você. Não dói mais, acredita? Dormir sem o seu “boa noite” não dói mais. Não ter o seu colo, o seu ombro ou as pontas dos seus dedos gelados fazendo carinho no meu joelho não dói mais. Não dói ver as fotos, escutar as músicas ou sair de casa e conhecer gente mais interessante e divertida que você. Eu posso, enfim, dizer que estou curada. O tempo me curou de tudo aquilo que eu pensei ser incurável. E a vida tomou um novo rumo, eu estou seguindo outro caminho, a luz do sol nunca brilhou tão forte assim. É lindo admitir que o passado passou. Se você ler isso - e eu sei que você vai ler, um dia, mas vai - eu espero que nenhuma ponta de arrependimento te toque um pouco mais fundo. Mas espero, de todo o meu coração, que você encontre alguém tão bom ou até melhor do que eu fui ou tentei ser. Jamais duvide do quão maravilhoso você é, por favor. Eu prometo também jamais esquecer que, apesar de toda essa minha estrutura meio enferrujada, no fundo eu também sou esse tal alguém maravilhoso que você enxergava em mim. Chegamos ao limite. Fim do segundo tempo, baby. Vamos encerrar o placar de 0x0, pois tentar marcar qualquer ponto nesse jogo de alucinados é loucura - é tortura, pra ser mais específica. Não vou te pedir pra que não me telefone mais ou pra que pelo-amor-de-Deus-me-telefone. O triste é ver que todo aquele amor virou um mero “tanto faz”. E mais triste ainda é reconhecer que eu não tenho mais motivo algum pra fingir que sou forte o bastante e aguentar tudo sozinha. Eu desabo mesmo, choro mesmo, grito mesmo, bato o pé mesmo. A melhor parte de você ter saído da minha vida, é que eu tive espaço pra entrar nela. Por mais que não tenha mais sentido escrever sobre o que fomos, tampouco tentar escrever sobre outras pessoas procurando os seus traços no meio das palavras embaralhadas. Não foi perda de tempo te amar, te esperar, te querer. Mas confesso que seria perda de tempo viver pra sempre em uma bolha impregnada com o seu cheiro. Obrigada pela sua parte que me fez feliz, e obrigada ainda mais pela sua parte que me fez sofrer - ou melhor, crescer. Eu não queria que isso ficasse nostálgico, mas foi impossível. Peço perdão por isso, mas não me culpo por todo o resto. Não se culpe também. Foi bom e teve fim… Está tendo um fim. Se precisar ter a certeza de algo, eu te peço pra ter apenas de duas coisas: a primeira foi que eu te amei; a segunda é que essa é a última vez, em toda a minha vida, que eu escrevi sobre você.
— 
Capitule, O último texto e o primeiro adeus.